Eu achava que era feliz, até começar a pensar. Não que antes fosse um ser irracional, mas é como se fosse. Aí comecei a questionar e a ir atrás da verdade - aquela que eu ainda não encontrei. Nesse caminho eu me dei ao luxo de ignorar meus princípios e aquela vozinha interior que sempre mantiveram-me presa ao banco da igreja. Acontece que elas nunca prenderam minha mente.
Pulando boa parte da minha história, chegou uma hora em que estava insuportável minha vontade de ir pra cidade grande tentar a vida. Eu queria sair de casa e ser livre, queria um emprego decente na minha área, queria sassaricar com os amigos da internet, queria me aventurar nos braços de um certo barbudo que estava cativando minha atenção. A ordem dos fatores sempre dependeu do meu estado emocional de cada dia. Apareceu a oportunidade, um emprego que me pagaria o suficiente para me bancar na cidade dos meus sonhos. Não pensei duas vezes, desacatei a autoridade dos meus pais (que eram totalmente contra minha mudança), arrumei as malas e no segundo dia do ano estava embarcando para São Paulo. Para uma vida que eu desconhecia, para uma cidade a qual conhecia de passagens e lidas, para um quarto de pensão dividido com uma conhecida de internet que acabou virando irmã.
Eu, que sempre neguei a mim mesma para agradar meus pais super religiosos. Que sempre, apesar de não ser perfeita, quis a aceitação e aprovação deles, taquei o foda-se e saí de casa.
Minha decisão foi tomada, como eu disse antes, sem pensar duas vezes, mas foi a que achei (e ainda acho) certa pra mim. Com 23 anos eu finalmente aprendi a andar de transporte público, administrar minha renda, pagar contas, me virar sozinha. Eu cresci nesses cinco meses o que não cresci em anos. Muito mudou dentro de mim, e foi tudo muito lindo até agora. Mas não foi e não está fácil. Foi um choque e tanto.
Quando eu cheguei, eu me apoiei em duas pessoas: minha melhor amiga e o barbudo.
Ela trabalhou comigo durante os primeiros quatro meses, e mais do que antes era minha confidente e força. Aí encontrou outro trabalho e eu fiquei sem essa amiga de todo dia pra tagarelar e desabafar, pra dizer que tá tudo bem e que eu estava exagerando. Não tenho mais ela, nem amigo algum no trabalho (bando de jornalista panelinha!).
O barbudo, bem, acabou sendo a melhor das apostas aqui. Esteve comigo nos melhores momentos, ouviu meus lamentos, me acolheu e me roubou o coração. E ele me deixava tão feliz com a sua presença quase que diária, que aos poucos fui esquecendo dos problemas, das dificuldades e da briga que eu comprei com a vida quando resolvi mudar pra cá. O barbudo hoje me namora, e há um mês namora de longe. Trabalho temporário viajando, vem uma vez por mês pra cá, longa história. E nessa de ele ir embora, eu percebi uma mudança em mim. Fiquei dependente da felicidade que ele me dava diaria e presencialmente. Ele não é dos mais atenciosos, mas é o melhor que pode ser e eu acho lindo o esforço que ele faz pra me dar atenção mesmo de longe. É uma das pessoas mais incríveis que eu conheço, e eu gosto tanto dele que até dói (isso é bom!).
Com essa viagem longa eu percebi que fiz dele minha válvula de escape, porque toda vez que eu tinha vontade de chorar ou via algum problema, ele me dava um beijo e tudo passava. Agora eu não tenho ele aqui, muito menos o beijo.
De repente me vi uma menininha vulnerável, chata, carente, confusa e perdida. Cadê a Vívian independente e segura que chegou na cidade grande sozinha?
Comecei a enxergar novamente conflitos interiores que já existiam, e a inventar outros. E pra fugir disso passei a viver, nesse último mês, em função da volta do barbudo. A vontade era só de comer e dormir pro tempo passar mais rápido. Nem a vontade de trabalhar, minha eterna paixão (sou workaholic, me deixa) vencia. Mas e aí? Vou ficar nessa deprê querendo fugir dos problemas até ele voltar pra maquiar tudo de novo?
Meus pais não estão mais aqui, a melhor amiga e o namorado não estão mais no meu dia-a-dia, o dinheiro tá contado, a saúde não anda bem e o número de amigos está próximo a zero. O mundo não vai acabar - pelo menos não por isso. Eu sei, no meu racional, que preciso arranjar mais atividades, dar mais a cara a bater, sair e me empenhar mais. Como faz pra isso chegar ao emocional e me aquietar?
Eu preciso mais do que nunca aprender a ser eu, eu só e sem ninguém. E aprendendo serei um eu bem melhor pros outros, e pro barbudo também. Não é justo eu sofrer a falta que ele me faz e intensificar isso com o resto dos meus problemas. Não é justo eu não ficar feliz pela oportunidade que ele está tendo de conhecer o Brasil e se divertir trabalhando, mesmo que a diversão seja sem mim. Tenho que aceitar minha felicidade sozinha, tenho que aceitar meu tempo comigo mesma e me acostumar a conviver com a Vívian, colher as lágrimas dela, ouvir os pensamentos dela, rir quando ela quiser e passar a fazer coisas gostosas eu e ela, nós, eu. Só.
Tenho que entender que eu escolhi estar longe dos meus pais, mas que a vida é minha e não posso desperdiçá-la vivendo os sonhos deles. Arranjar logo uma faculdade pra finalmente me formar. Convencer minha chefe de que eu sou realmente boa e que ela tem que investir no meu setor. Ligar logo no curso de pole-dance pra fazer minha matrícula. Comprar a porra do iPhone que eu tô querendo há meses mas enrolo. Parar de esperar os outros me chamarem pra sair e eu mesma ligar atrás deles. Correr atrás de um apê pra eu, a Lu e mais alguém morarmos definitivamente. Preciso me distrair com coisas minhas, e não as alheias. Fazer planos meus, que eu mesma possa realizar. Viver a vida como se não houvesse amanhã, nem a volta do barbudo…
Eu achava que era feliz, mas procurava a felicidade nos outros. A vida não é fácil, eu tenho que aprender a lidar com meus problemas sozinha.
Eu quero ser feliz sozinha, pra ter tanta felicidade que vai ter de sobra pra fazer ele feliz também.
Mas pra isso, eu preciso me encontrar. Tô me procurando, mas ainda não sei onde estou. E quando eu descobrir, eu sei que as coisas vão melhorar.

(Source: outuveuxpas)
Você me bagunça e tumultua tudo em mim. — O Teatro Mágico (via ditadomeu)
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